Há algumas semanas fui convidada para
conhecer o belíssimo e gélido reino de Arendelle. Uma menininha, um tanto
quanto encantadora, me levou a ele. Essa menininha? Giullia que tem apenas cinco
anos, aos mesmos cinco é minha prima em primeiro grau. Uma garotinha amável,
assim como a maioria, porém Giullia é diferente. Mas, não é um diferente físico
ou algo do gênero. Não se assuste. Ela é diferente – em minha opinião – pois,
consegue criar mundos e histórias com uma facilidade meramente desconhecida.
Encontrava-me na casa de Giullia, em um dia
frio. Estávamos sentadas vendo ao seu desenho animado favorito, quando de
maneira abrupta Giullia virou-se em minha direção e me indagou sobre algo que,
permaneci em silêncio por alguns segundos antes de responder. “Prima, você já
foi à Arendelle?”. Eu, em meus vinte anos pensei primeiramente “céus, o que
direi a esse ser?”, mas, acabei dizendo “Ainda não, por quê?”. Giullia ficou espantada.
Sua face coberta pela pele branquinha como gelo ficou ao ponto de transparência
e os olhos azuis se arregalaram. Aquilo pareceu o fim do mundo a ela. Travei e,
me peguei em uma sinuca de bico, pois não sabia novamente o que dizer para
aquele pequeno ser de cinco anos algo que a deixasse menos espantada. Enquanto
eu pensava, Giullia soltou “prima, como você nunca foi ao reino mais incrível
do mundo?”. Naquele momento pensei “lá vem ela com mais algumas histórias
aventureiras que ela costuma criar”, porém não foi isso o que aconteceu.
Fiquei em silêncio novamente. Nesse momento
Giullia desembestou a falar as palavras mais sinceras que já ouvi de sua boca.
“Prima, você precisa conhecer aquele lugar,
ele é incrivelmente lindo. Existe gelo por toda parte, porém, apesar disso, é o
lugar perfeito para você encontrar amigos legais e que se preocupam com você. Passei
lá na semana passada, acredita? Minha mãe não sabe, por favor, não conte a ela.
Mas, foi incrível. Eu me diverti tanto.
Fui para Arendelle para visitar minha amiga
Elsa e a irmã dela Anna. Quando cheguei lá estava nevando, porém quando bati na
porta do castelo me receberam com uma xícara de chocolate quentinho. O castelo
era lindo, completamente feito de gelo! Você tem noção do que é um castelo
feito de gelo? As escadas brilhavam prima. E, não era porque a mãe da Elsa
limpa ela todo dia igual a minha mãe limpa as escadas aqui de casa, elas
brilham porque são de gelo, e quando tem sol lá às escadas fazem muitos
arco-íris nas paredes QUE TAMBÉM SÃO DE GELO!
Quando subi as escadas encontrei Elsa e Anna
brincando no quarto. Me juntei a elas. Nos divertimos o dia inteiro. Brincamos
de pega-pega, esconde-esconde e, depois brincamos de casinha. Eu tinha uma filha
que era um boneco de neve, mas eu mantive ela agasalhada com cachecol e luvas.
Depois a mãe dela fez um bolo delicioso de chocolate, com muita calda para nós.
Eu comi muito! Mas, acabei precisando voltar para casa porque eu tinha
escolhinha no dia seguinte.”
Nesse momento, eu me encontrava completamente
perplexa pela história completamente rica em detalhes que Giullia me contou. Permaneci
sem reação, enquanto ela virou-se novamente para a televisão e voltou a
assistir seu desenho favorito.
Após, alguns minutos em que tentei raciocinar
novamente, a indaguei na plenitude da minha ignorância adulta: “Mas, Giullia,
como você acredita que tudo isso é verdade? Que você realmente foi à Arendelle?
O que a sua mãe disse sobre mentir e inventar histórias?”. Ela, sem expressar
algum movimento ou expressão, continuou olhando para a televisão e me disse:
“Prima, não estou inventando tudo isso”. Comecei a irritar-me, sua mãe já havia
lhe dito para parar de contar histórias mirabolantes de reinos e encantos, a
indaguei novamente: “Então, como você poderia provar para mim que você
realmente foi para Arendelle?”. Ela, na maior calma do mundo, virou apenas a
cabeça em minha direção e disse: “Estava muito frio lá, eu não levei casaco,
por isso estou gripada. Agora você acredita em mim?”. Fiquei em silêncio e
desci as escadas, Giullia permaneceu.
Fui contar à minha tia a história em que
Giullia havia acabado de me contar. Em poucas palavras minha tia me contou que
na semana anterior ela havia desligado a geladeira para descongelar o
congelador e, Giullia havia permanecido brincando os gelos e raspas na porta do
congelador. Naquele momento percebi o quanto eu havia perdido o olhar encantado
de enxergar o mundo, assim como uma criança. E, que após você fazer alguns anos
às coisas mundanas, do dia a dia, acabam tornando-se tão corriqueiras que nós
acabamos deixando-as passar, sem ver o encanto que elas podem ter.
Depois daquele dia, passei a policiar mais
minhas atitudes.
Voltei de Arendelle ontem.
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